"Eu tenho ideia de que as mulheres, neste momento, ainda têm alguma diferença dos homens porque elas sempre tiveram de dar provas e os homens não. Daqui a uns anos, essas provas vão deixar de ser necessárias, a diferença vai-se esbater. A mim, aflige-me muito a questão da violência doméstica que, sobretudo nas camadas mais baixas, é um suplício. Era preciso que estas coisas se tratassem de uma maneira diferente porque elas é que são as vítimas e são elas que têm de andar fugidas. Isto não faz sentido nenhum. A mulher é, fisicamente, um bocadinho mais frágil do que o homem e normalmente compensa com a força anímica, que é muito grande. Mas se ela tem essa preocupação de ser forte e de fazer das fraquezas forças, um ser frágil é que tem de ser protegido e não violentado. Isto é uma questão de mentalidades e isso custa muito a mudar.
Eu gostava que dessem condições às mulheres para elas se governarem. Eu acho péssima esta história das quotas e das leis que impingem mulheres. Não forcem as mulheres, dêem-lhes condições! O que era importante era que à mulher fossem garantidas condições para estar tranquila durante a hora do seu trabalho. Por exemplo, as creches do Estado fecham a meio da tarde e as mulheres estão a trabalhar e logo têm de interromper a jornada para ir buscar os filhos. Colocam-se numa situação de inferioridade em relação aos homens que não têm essas tarefas. Logo, não há igualdade de oportunidades. É importante que as mulheres tenham condições que permitam manter os filhos cuidados por profissionais, não tendo de ir a correr do trabalho buscá-los.
Era bom que as mulheres tivessem igualdade de oportunidades e possibilidades de mostrar do que são capazes porque têm tantas capacidades como os homens. À mulher deviam ser dadas todas as condições para ela decidir, bem como a igualdade de oportunidades."
Maria Cândida Rocha Silva, presidente do Conselho de Administração do Banco Carregosa
Maria José Morgado: Um 25 de Abril novo
"Ela estava no parque com os netos, a luz do fim de tarde coada pelo verde das árvores enchia a atmosfera de uma indescritível doçura misturada com o bruáá das brincadeiras inocentes. Era Abril, uma vez mais pensou no tempo contado pelos anos da filha e dos netos que faziam daquela distância um caminho para um 25 de Abril novo, onde os sonhos deram lugar às inquietações, onde a liberdade deu lugar a injustiças, onde as conquistas das mulheres deram lugar a desigualdades, onde a democracia também originou pobreza e corrupção, em vez da igualdade e justiça.
Pensou em tudo isso com a sensação amarga do falhanço das lutas da sua geração apesar de toda a exaltação dos tempos heróicos do passado, o que nos distancia do vazio das comemorações oficiais do estilo cravo-ao-peito, repetido e aborrecido. Porque é preciso compreender o mundo novo globalizado de hoje, onde o terrorismo, a corrupção, o cibercrime, a violência contra os mais fracos se transformaram em novos desafios ameaçadores do futuro dos nossos jovens e do mundo. Naquele fim de tarde mágico, o brilho carinhoso dos olhos das crianças ensinava-lhe o caminho."
Maria José Morgado, magistrada do Ministério Público
Quando começaram os trabalhos para a [Assembleia] Constituinte houve uma fase em que muitos direitos foram considerados e as mulheres não tiveram de lutar por eles, como o direito de poder ausentar-se do país ou abrir uma conta no banco, ambos sem o consentimento do marido. Na revisão do código civil, em 1976, consagraram-se ainda muitos mais direitos para a mulher dentro da família. A Constituição reconheceu a igualdade entre os géneros, o que permitiu às mulheres aceder a todas as profissões e algumas estavam vedadas, como a diplomacia e a magistratura. Houve um grande investimento no ensino, o que permitiu aumentar o número de mulheres que chegavam aos cursos superiores, o nível de vida também foi subindo e criou-se um salário mínimo. Por outro lado, acabou a guerra no Ultramar, os homens regressaram e isso foi bom para as famílias porque eram sobretudo casais jovens.
Nestes aspetos da sociedade, as mulheres só tiveram a ganhar. Há coisas que ainda faltam, mas o essencial já está conquistado. É um caminho que ainda se está a percorrer. A liberdade é o princípio e o fim de todas as coisas."
Maria Antónia Palla, jornalista e ex-chefe de redação da Máxima
A mulher era obrigada a ter a residência do marido e necessitava da sua autorização para exercer certas profissões, até aos anos 60, e o marido podia requerer o fim do contrato de trabalho da mulher. Só nesse ano foi reconhecida a igualdade da responsabilidade na educação dos filhos e se consagrou o direito da viúva à casa de família. E o seu direito de ser ouvida em tudo o que dizia respeito aos interesses dos filhos. Outra enorme mudança foi o fim dos filhos ilegítimos. Filhos unicamente reconhecidos pelas mães casadas ou solteiras com a possibilidade de indicarem no registo do filho o presumível pai e elas simplesmente mães. O impedimento legal da discriminação da mulher e a consagração da igualdade de direitos não significou de imediato a mudança de mentalidades. Mas foi um passo gigante nesse caminho.
Por mim, recordo com muito orgulho ter feito parte desse fascinante trabalho coordenado pela professora de Direito [Isabel] Magalhães Colaço com a participação de notáveis mulheres deputadas de todos os partidos no Parlamento que, independentemente das divergências ideológicas e políticas, se uniram nessa tarefa. Bons tempos!"
Zita Seabra, editora
A sorte de se ter vivido o 25 de Abril
"Onde estava no 25 de Abril? Lá! Às 7, o aviso: Está na rua! Eu ainda fui ao emprego que arranjara ao ser suspensa da Faculdade (‘subversiva’...), mas mandaram todos para casa. ‘Abaixo o Fascismo! Abaixo a guerra colonial!’ Do Cineclube Universitário saímos uns 50 para o Largo do Carmo. Depois dos chaimites com Marcello e Thomaz, subimos à PIDE-DGS. A multidão enchia a rua e gritava: ‘Assassinos!’ Eles ripostaram com as G3. Esgueirei-me entre as rajadas para um vão de escada, apanhando com gente em cima, de roldão. Pareceu uma eternidade até que deu para eu poder correr para a Brasileira. A Caxias, libertar os presos! Passava da meia-noite, no pinhal escuro vultos avançavam: o Tó Luís ainda conta como, do breu, lhe saltei ao pescoço... Ano após ano, revejo os Capitães de Abril, da Maria de Medeiros. Impossível esquecer a Cinemateca de Jacarta a abarrotar de indonésios que naquele 25 de Abril de 2002 aplaudiam e gritavam: ‘Maia! Maia! Maia!’ E a Joana sempre a dizer: ‘Oh, Mãe! Que sorte vocês terem vivido o 25 de Abril!’ Foi sorte incrível! E vivermos no Portugal livre que Abril nos abriu. Persistem injustiças e a corrupção tudo corrói, destilação neoliberal em ecossistema global. Um combate a travar com a determinação dos soldados de Abril: é Abril, por outros meios. 25 de Abril sempre!"
Ana Gomes, comentadora política e ex-eurodeputada