"Podemos dizer que a Liberdade veio dar mais valor à vida das mulheres? Sem dúvida que sim. Ainda lembro a agitação daquela manhã de abril que nos apanhou no intervalo das aulas, em Bragança. Havia no ar uma inquietação e uma mistura de fronteiras que transgrediam em toda a linha. Nós fomos jogar cinco minutos na mesa de pingue-pongue dos rapazes ainda com medo da repreensão e os rapazes passaram a fronteira para o recreio das raparigas. Não era bem uma fronteira física, mas era a pior das linhas imaginárias que nos tolhia a vontade e marcava os lados proibidos.
Depois a escola cresceu em liberdade e o conhecimento tomou conta de todos (ainda faltam alguns, muitos, a mostrar-nos que é preciso continuar e melhorar), mas a democratização do ensino permitiu o acesso das mulheres ao conhecimento e a escolhas antes impossíveis. Mulheres na Ciência é um projeto da Ciência Viva que homenageia as mulheres portuguesas que hoje fazem ciência a par com os melhores em todo o mundo. Portugal é um dos países da Europa onde é maior a percentagem de mulheres que se dedicam à investigação e isso mostra os excelentes resultados que a ciência e a tecnologia portuguesas têm alcançado nas últimas duas décadas.
Foi longo o caminho percorrido por homens e mulheres que inspiram quem deseja dedicar a sua vida ao conhecimento, ao desenvolvimento e à inovação. Porque a ciência, no nosso Portugal de Abril, feita por mulheres e por homens, é para todos."
Rosalia Vargas, diretora do Pavilhão do Conhecimento e Presidente da Ciência Viva
Trazer a mulher para a vida na sociedade
"Para a minha geração, o 25 de Abril foi a coincidência óptima entre momento histórico e momento biográfico. Vivi a história certa na idade certa. Cresci com os projectos de mudança dessa época do ponto de vista político, cívico, social e comunicacional. E, claro, com essa grande mudança efectiva que foi trazer as mulheres para a vida na sociedade. Tirá-las do tanque de lavar roupa e da bisbilhotice de fontanário ou de patamar de escada.
No 25 de Abril, Portugal actualizou-se. As mulheres portuguesas conquistaram finalmente aquilo que as mulheres na Europa moderna haviam conseguido há muitos anos. E nisso as mulheres emigrantes tiveram um papel decisivo ao transportarem para Portugal uma experiência de actualização para as que viviam cá. Algumas personagens das novelas brasileiras também foram importantes nessa mudança.
Tal como os homens, no 25 de Abril, as mulheres conquistaram também a liberdade de expressão, de pensamento e de associação, bem como o direito à saúde, segurança social e sobretudo à educação, que assumiu particular importância. Veja-se o papel da escola pública na criação de um espaço de equidade. Como mulher, estou agradecida às mulheres e homens que contribuíram para estas conquistas com desassombro e coragem, duas qualidades que muito admiro."
Luísa Schmidt, investigadora no Instituto de Ciências Sociais, ICS-ULisboa
Viver liberdade!
"Acredito que a liberdade vem de mãos dadas com o progresso científico. Para formular novas ideias e arriscar novas perspetivas, não é suficiente conhecer o que já foi descoberto. É preciso dar liberdade à mente. Liberdade para explorar novas direções, liberdade para questionar dogmas e liberdade para expor ideias controversas sem censura, desde que fundamentadas racionalmente. É esta capacidade de complementar o raciocínio lógico com liberdade criativa que permite avançar nas fronteiras do desconhecido. Eu não sei se seria cientista se tivesse crescido com menos liberdade, mas tenho a certeza que a luta teria sido bem mais difícil."
Joana Cabral, investigadora no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho
O espaço público era limitado para as mulheres que eram objecto de assédio agressivo da parte de homens, numa masculinidade muito primária, mas muito bem aceite. Dar o aspecto de ‘mulher séria’, ‘com pudor’, ‘a disfarçar as formas’ era a regra nas cidades. O acesso a profissões consideradas masculinas, como a engenharia, era limitado. Em Medicina, havia especialidades mais ‘femininas’ do que outras. Nas poucas assembleias que eram permitidas, mesmo nas associações de estudantes, poucas eram as raparigas que tomavam a palavra."
Isabel do Carmo, médica especialista em endocrinologia, diabetes e nutrição
Encontrei um país em mudança
“Estou agora em funções de gestão de topo da investigação científica e tecnológica, em Portugal, na Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Tenho assim o privilégio de contribuir para estruturar, enquadrar e dinamizar o sistema científico nacional. É um desafio entusiasmante para quem, com uma vida intensa como cientista e professora universitária, assistiu aos avanços da ciência portuguesa desde o 25 de Abril e aos fantásticos resultados do país nos vários indicadores, do número de doutores às publicações internacionais.
Não era assim em 1974. Os poucos doutores eram formados no estrangeiro. Tal como eu. No 25 de Abril eu estava, muito jovem, a iniciar o doutoramento na Alemanha, em Hamburgo. Lembro-me bem de estar no corredor da residência de estudantes, no único telefone, a tentar marcar voo para Portugal, que não consegui... Quando regressei, encontrei um país em mudança, ávido de conhecimento e de novas experiências… Um terreno fértil para a investigação!
No meu doutoramento, investiguei temas que continuaram a acompanhar-me: melhorar a conversão química da madeira, valorizar os produtos residuais nos efluentes, procurar fontes renováveis para energia e materiais. Hoje falamos da valorização da biomassa, das biorrefinarias, de economia circular, mas os princípios mantêm-se.
Uma das minhas realizações como cientista foi a de aplicar as competências adquiridas para fazer avançar as fronteiras do conhecimento para um material de grande relevância para Portugal ? a cortiça. As linhas de trabalho que desenvolvi no Centro de Estudos Florestais tiveram reconhecimento internacional e a cortiça e o sobreiro são temas hoje investigados por vários outros grupos.”
Helena Pereira, presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)